Ainda não terminei de escrever …
Certa vez, após alguns minutos de viajem, começou a discursar no ônibus um rapaz com tantos argumentos persuasivos, que confesso desconhecidos por mim até aquele encontro, para que fossem comprados pelos passageiros os livros e apostilas que ele trouxera a respeito da correção ortográfica mais recente da Língua Portuguesa, que me chamou atenção e me fez pensar em outras coisas.
Ouvindo o que o rapaz dizia, e da forma que o fazia, tinha-se a impressão de que ali se estava uma espécie de vendedor informal, independente de outras comparações e especulações, mas de uma natureza diferente dos demais, com um nível e qualidade de informações que teriam feito inveja a qualquer um dos passageiros que puderam ouvir o seu discurso.
Não desmerecendo os trabalhadores informais, que são um dos ícones mais marcantes de toda a nossa sociedade, ao lado dos jogadores de futebol e dos não tão dignos políticos corruptos, mas será que aquele rapaz, com todo o potencial intelectual que demonstra em poucos minutos de conversa, teria escolhido outro destino se tivesse tido a chance?
O que quero dizer é que muitas vezes a sociedade empurra o cidadão mais humilde para uma realidade que ele não escolheu, seja pela falta de ensino de qualidade ou condições de emprego mais vantajosas.
Tendo-se em vista que um livro qualquer custa quase 10% do salário mínimo que é recebido por milhares de pessoas nesse país, e que as pessoas que o recebem geralmente precisam sustentar suas famílias com ele, pode-se entendê-lo como um mecanismo de alienação em massa e não de inclusão social ou melhoria das condições de vida de quem trabalha com carteira assinada.
Enfim, fico pensando se o preço absurdo que pagamos pela passagem de ônibus, que aceitamos sem questionar, não é uma das coisas que nos leva a um continente de desigualdade, ignorância e corrupção, que nos distância das pequenas ilhas de prosperidade nas quais se encontram aqueles que estipulam os preços, as taxas, os impostos…