Ensaio sobre anulação e renascimento sensorial do ser humano
A bolha, a qual se dirige esse relato, foi desenvolvida por cientistas brasileiros e tem como principal funcionalidade simular a gravidade zero e anular totalmente a infiltração de som externo e de luz no seu interior.
Segundo pesquisadores essas e outras características da bolha fariam com que o participante viajasse numa atmosfera artificial diferente da nossa, onde ele recriaria as experiências auditivas, táteis, olfativas e visuais.
Quando perguntado sobre sua principal motivação para a criação do projeto, o professor de física Rafael Sousa relatou que a super exposição das pessoas à informação faz com que elas deixem de perceber o mundo com seus instintos mais primitivos. Isso gera um processo que ele intitula como ”perda gradativa da atividade sensorial” na qual a pessoa deixa de utilizar os sentidos e age de forma robótica, sem questionamentos mais aprofundados em relação à origem e funcionalidade dos objetos e sensações que estão no mundo. A bolha teria a função de resguardar e reanimar a atividade sensorial.
De dentro da bolha
Entrar na bolha é uma experiência única, que se assemelha muito com os primeiros nove meses de vida no útero materno. Revestida de um composto de fibra de acetato e tinta preta, a bolha é conectada a uma máquina que anula a gravidade. Para entrar, é necessário estar nu e tomar um banho com uma solução que remove os resíduos de poluição e produtos químicos que utilizamos.
Confesso que quando eu me propus a fazer parte desse ensaio não imaginei a magnitude do projeto. A bolha tem quase 5 metros de diâmetro e ela mesma flutua ainda que conectada à máquina gravitacional. Depois que eu entrei, ela foi lacrada com uma espécie de zíper produzido pela Nasa e preenchida do ar que eu respiraria pelas próximas 2 horas.
A sensação de medo ao entrar na bolha logo é substituída pelo conforto gerado pelos efeitos sonoros que se pode ouvir de dentro da bolha. Lá dentro eu fiquei flutuando, e não conseguia ouvir o som que vinha de fora e também não penetrava luz.
Depois dos primeiros 30min eu imagino que eu tenha desmaiado e estava tendo sonhos que me lembravam a minha infância. Mas posteriormente numa conversa com o professor idealizador da bolha ele me explicou que eu não estava desmaiada, e que aquilo era o objetivo da bolha, fazer com que eu fosse desligada do mundo real e me remetesse à época mais simples da minha existência.
Aquela atmosfera com o som fazia com que eu me lembrasse da época em que vivi no útero de minha mãe, e os sonhos que eu julgava serem alucinações eram simplesmente os meus sentidos sendo desbloqueados e reagindo à atmosfera.
Saindo da bolha
Eu percebi que havia acabado o ensaio porque a música que eu ouvia foi gradativamente sendo substituída pelo som ambiente do lado de fora da bolha, o que me fez despertar do estado de purificação sensorial. A máquina gravitacional foi desligada e eu fui sendo levada ao chão. No momento em que eu deitei por completo no solo a bolha foi esvaziada.
Depois que eu despertei por completo e pude rever o mundo me senti diferente. Me senti como se naquele momento eu renascesse e passasse a perceber o mundo de uma maneira diferente e nova. As sensações que se têm dentro dela são únicas e renovadoras.